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ENTREVISTA: Tiaraju Aronovich
por Alvaro Henrique, com colaboração de Ericsson Castro Tiaraju
Aronovich, gaúcho de nascimento e com sua formação musical feita em São Paulo, é
um jovem violonista que cada vez mais está conquistando seu espaço – não só
tocando violão, aliás. Na edição dessa semana a Revista QUEM, já nas
bancas, acompanha um CD com duas faixas desse artista: Hope (para violão e oboé)
e Absolution (para violão, violoncelo e flauta). As músicas são trilha sonora de
dois filmes produzidos por ele, Far West (www.FarWestTheMovie.com) e Chasing Life (www.ChasingLifeTheMovie.com). No momento, os dois filmes não
estão disponíveis no Brasil. Nessa longa e divertida entrevista falamos de
vários aspectos da sua carreira, e se podemos resumir tudo em uma palavra, ela seria "inclusão".Como começaram seus estudos de violão? Eu sempre acreditei que a chave para tudo seria "inclusão", e não "exclusão"... Então, aos 9 anos de idade, eu queria muito tocar guitarra elétrica (como, acredito, a maioria dos violonistas), e comecei o processo de inclusão por aí. Acreditava que para tocar bem guitarra, deveria tocar bem violão erudito... Evidentemente, o violão erudito abriu um leque IMENSO... (mais uma vez, como para muitos de nós). Conforme fui avançando nos estudos (comecei a estudar com o Carlos Pachiega, grande jazzista, depois passei pelo processo padrão de seminários e workshops até começar a fazer aulas com o Henrique em 96 ou 97), fui percebendo um grave problema na cultura violonística - justo isso - da EXCLUSÂO. Parecia que exclusão era o lema. E isso me incomodava. Eu era bem jovem (tinha 15, 16 anos), mas isso já me incomodava bastante. Todos só falavam de violão, só escutavam violão, só iam a concertos de violão, os recitais só tinham violonistas na platéia... Isso me deixava louco! Aliás, a coisa ainda está meio assim, não? Sim, especialmente em São Paulo. É triste de perceber, tanto no aspecto musical como no aspecto prático. Suas primeiras aulas foram de violão erudito, violão popular ou guitarra? Na verdade foram de piano e violino, mas logo em seguida passei a estudar violão erudito e guitarra simultaneamente. Você começou com piano e violino por conta própria e depois mudou para violão e guitarra? Não, minha mãe me colocou no violino com a família Fukuda mas eu era um baixinho metaleiro... (risos) Com o piano aconteceu a mesma coisa, mas finalmente, por vontade PRÒPRIA, comecei violão e guitarra. E como foi conciliar violão erudito e guitarra durante a adolescência? Adolescentes são radicais por natureza e costumam andar em "tribos", como foi conviver com amigos e universos diferentes? Eu era bem novo quando comecei o violão, então foi um pouco antes da adolescência. Durante a adolescência propriamente dita, eu já não tinha problemas com as tribos pois já tocava legal, e o pessoal curtia isso, qualquer que fosse a tribo. A única dificuldade era ás vezes abrir mão de festinhas, cinemas e baladinhas para ficar estudando violão. Isso ás vezes me entristecia, mas eu era muito disciplinado e sabia que o violão clássico era uma esposa exigente (risos). Você levou por quanto tempo violão clássico e guitarra em paralelo? Acho que levo isso até hoje. Adoro Bach, mas também amo Pink Floyd e Chico Buarque, e faço questão de tocar de tudo... A única coisa que mudou foi que o tempo dedicado ao violão era imensamente maior que o tempo dedicado à guitarra e ao pop. Você formou bandas na sua adolescência, fez shows tocando guitarra? Sim, e foram engraçados. Cheguei a abrir para uma banda relativamente grande, o Dr. Sin, conhece? Eu tocava guitarra e cantava (Jimi Hendrix, Zeppelin) e com a MPB foi a mesma coisa. Tive uma banda muito boa chamada "Tempo Em Verso" onde eu tocava e cantava junto a um flautista, pianista, baixista e baterista. Fizemos muitos shows. Por último, acho que o projeto mais sério foi um trio que eu tive chamado "Maria Fulô". Era MPB, Jazz e Blues, eu no violão e guitarra, mais um excelente pianista e minha irmã (que hoje canta no coro paulistano do municipal) nos vocais. Tocamos bastante até eu ir para os EUA. Então, sempre levei o erudito como prioridade, mas sempre trabalhei com música de vários estilos. Acho que um estilo complementa o outro. Quer dizer que esses projetos aconteciam em paralelo a seus primeiros recitais de destaque em São Paulo? Sim. Eu estava preparando concursos e recitais como louco, estudando violão da uma da tarde até as 7 da noite todos os dias. Aí durante a noite eu ligava o amplificador e trocava o disco (risos). E como foi o seu começo no violão erudito? O que você fez aqui que abriu as portas para você ir pros EUA? Bom,
acho que eu comecei a tocar a bola pra frente pra valer em 97, quando rolou um
festival enorme no SESC. Até então, eu participava pouco do mundo violonístico,
mas naquele festival eu toquei bastante e vi que eu estava em boa forma. Tentei
meu primeiro concurso mo Musicalis e veio a surpresa - ganhei! Na época,
acredite se quiser, eu toquei (no concurso mesmo) com um Takamine. Daí pra
frente eu comecei a atacar com força, mil aulas (com o Oscar Ghilia, Roland
Dyens, David Russel) e mil concursos. Tudo isso é muito bom pra abrir contatos,
conhecer professores e universidades. Ganhei uma bolsa pra fazer um workshop nos
EUA com MUITA gente fera, e lá eu "enchi o saco" de todos os professores para
tocar para todos, e toquei (risos). Isso foi crucial para minha ida aos EUA.
Todos os professores me conheciam e sabiam da minha seriedade. Eu também tinha
vencido outros concursos aqui no Brasil (Souza Lima, Berklee) e sempre avisava
os professores. Aí não foi tão complicado ir para lá. Eu já tinha um currículo
legal aos 18, 19 anos com muitos concursos, workshops e recitais em lugares
bacanas e sempre gostava de fazer contatos e FICAR em contato, isso é
importantíssimo. As entrevistas que fiz para a Violão Intercâmbio eram também
uma forma ótima de me colocar em contato com grandes professores da época... Eu
era cara-de-pau mesmo (risos).Foi a partir dos primeiros concursos que você decidiu, naquele momento, que o violão erudito lhe abriria mais portas e decidiu investir mais nisso? Eu sempre soube que minha vida seria música. Mas de fato os concursos me mostraram que eu tinha uma boa chance e deveria investir tudo no violão. Era o que eu amava, e podia mostrar isso nos concursos. Acho que a versatilidade de estilos ajudou bastante. Muitas vezes eu errava em concursos e ninguém percebia... Uma improvisadinha aqui e ali e pronto (risos). Isso ajudava a combater o famoso nervosismo. E quando foi a sua ida aos EUA? Que mudanças aconteceram na sua vida musical de imediato? Minha ida foi em Janeiro de 2000. Fui para o Arizona. A mudança na vida musical foi radical: Em primeiro lugar, eu tinha uma bolsa integral (o que é raríssimo em bacharelado) e isso me acarretava muita responsabilidade. Precisei deixar a música popular meio de lado e me dedicar só à música erudita. Por outro lado isso foi ótimo, pois tive tempo de pesquisar e entrar em contato com pessoas que literalmente revolucionaram meu modo de pensar tanto em música como em técnica. O Frank Koonce, no Arizona, me mostrou que eu era muito mais violonista do que músico e que deveria aprender música antes de aprender violão. Isso me arrasou primeiro, mas depois foi maravilhoso. Já o Barrueco e o Scott Tennant, por outro lado, me deram uma visão literalmente "científica" da parte técnica. Foi como um milagre, eu conseguia resolver todos os problemas técnicos de forma inteligente, foi quase um processo de recomeço mesmo, tanto musical como técnico. Mas deu certo, tanto que poucos meses mais tarde cheguei na final do GFA usando esse conhecimento novo. Esse foi o período mais "100% violão erudito" da sua vida. Algum tempo depois você retomou o contato com a música popular. Como se deu isso? Sim, retomei a música popular sim, não posso viver sem ela. Eu diria que até meados de 2001 (acho que Julho) eu ainda estava 100% violão erudito. Foi só depois do concurso na Itália (o Simone Salmaso) que eu quase entrei em "depressão musical" por falta dos outros estilos que eu amava. Nisso, a Califórnia foi perfeita, pois lá é o ambiente ideal para mesclar as coisas. Aí voltei a fazer meus próprios arranjos, estudar muito música folclórica da Macedônia, que ainda hoje é uma das minhas especialidades (adoro música folclórica), e retomei também música brasileira. Quando você mudou para a Califórnia? Por quê você saiu do Arizona e foi para Los Angeles? Me mudei para Los Angeles em Agosto de 2000. Na verdade fiquei só um semestre na Arizona State University. As razões foram várias, mas para simplificar vou dividir em razões pessoais e profissionais: Pessoais: Eu não gostei do Arizona. Um deserto sem fim, tudo vermelho, um povo bem fechado (difícil se relacionar, então foi um momento de muita solidão), tudo muito isolado de tudo, um calor infernal, etc... Profissionais: O meu violonista predileto de todos os tempo, um cara que eu idolatro como músico, violonista, arranjador, improvisador e compositor, o Miroslav Tadic, dava aulas no Califórnia Institute of The Arts, e, além disso, eu sempre tive muita, mas muita vontade mesmo de trabalhar com cinema (o que também faço hoje em dia), e não havia lugar melhor que a Califórnia. Aí a mudança foi radical mesmo. Eu liguei para o Miroslav e falei literalmente: "Miro, eu estou voltando para o Brasil em junho, a não ser que você me dê uma bolsa integral e um cargo de professor assistente para ganhar uma grana aí na Calarts". Ele concordou, eu fiz as malas e fui pra Hollywood (risos)... Tiaraju, muitas das pessoas que visitam esse site dariam tudo para ter as chances que você teve, de fazer um curso superior com bolsa integral no exterior, de ser premiado em concursos importantes de violão erudito... No momento em que o sucesso parecia mera conseqüência na área do violão erudito, você deu uma guinada total na sua carreira. O que o motivou a fazer isso? Acho que honestidade comigo mesmo e com a arte. Como eu te disse no início da entrevista, eu acredito em inclusão, um ideal renascentista mesmo, meio Leonardo Da Vinci. Amo música erudita, música popular e cinema, e quero trabalhar com todas essas coisas. Se eu me concentrasse apenas no violão erudito, eu ficaria frustrado. Trabalhando nessas áreas todas, eu sinto que uma ajuda a outra... Faço minha música com mais sinceridade. Eu decidi que não queria passar minha vida tocando para agradar jurados, professores ou mesmo outros violonistas. Eu queria tocar para agradar a mim mesmo e ao público que gostasse da minha música. O Miroslav me influenciou muito nisso, ele foi um pivot importantíssimo. Ele me dizia: "Tiara, você toca coisas dificílimas, tem uma grande habilidade técnica e estuda sem parar, mas tudo o que eu vejo aí são dedos ágeis e precisos. A música que você toca não tem vida ou expêriencia. Você precisa estudar menos e viver mais, assim a sua vida vai ser transmitida através da tua música". Ele me dizia para ir viajar, para escrever poesia, me embriagar, tomar foras, me entristecer, aí sim a minha música ficaria interessante, pois eu teria MUITA coisa pra contar através das notas. Foi difícil acreditar naquilo, pois eu era VICIADO em estudar. Tinha uma disciplina de monge shaolin. Estudava pelo menos 6, 7 horas por dia ou entrava em crise. Mas eu entendi o que ele dizia, e, sobretudo, PERCEBI. A diferença na maneira que eu toco hoje pra maneira que eu tocava 3, 4 anos atrás é gritante. Acho que eu não conseguiria escutar o Tiara de 2000 nem por 15 minutos, ficaria entediado. O que, aliás, acontece com a maioria dos violonistas que escuto. Sobra dedo, mas falta vida. Acho que tudo isso foi o pivot dessa guinada que você mencionou. E o que você tem feito desde essa mudança? MUITO! Tudo que eu sempre quis fazer. Hoje em dia, só me apresento ou gravo alguma coisa se eu tiver de fato algo NOVO, algo único. Tudo que eu toco precisa estar fresco para mim. Sem dúvida ainda toco bastante do repertório tradicional, as Rossinianas, Paganini, Bach, mas só para mim mesmo, para manter os dedos em forma... Apresentações e gravações, só com material novo. Além disso, tenho minha própria produtora de filmes - que está pequena, começando - mas já tem dois longas prontos - obviamente eu compus e gravei as trilhas sonoras. As músicas que saíram na QUEM são trilhas sonoras. Estou preparando um arranjo enorme de músicas folclóricas da Macedônia e do Brasil, com certeza quando isso estiver a ponto de bala, vou mostrar por aí. Então estou juntando tudo - música erudita, popular e filmes. Não consigo pensar num filme, numa estória qualquer sem pensar numa música e vice-versa, não consigo ouvir uma música sem imaginar uma história, algo para contar, então juntei essas coisas. Pelo visto a variedade de atuação, que alguns músicos vêem como um fardo, pra você é uma necessidade, você não viveria sem atuar em várias áreas, como músico de vários estilos, produtor de concertos, na área do cinema... Verdade. Acho que a variedade é uma característica marcante dos meus artistas prediletos e procuro me espelhar neles: Itzak Perlman, Yo Yo ma, Miroslav Tadic, e muitos outros, são todos multi-uso... (risos) Para citar violonistas daqui, penso de cara no Belinatti, no Marco Pereira e nos Assad, todos também flutuam por estilos e atividades várias. Mas seu caso é de maior proporção, pois não basta ser um músico amplo, você ainda produz séries de concertos, colabora com revistas, é ator, produtor de cinema, escreve trilhas sonoras... Há até uma participação no Rá-Tim-Bum no seu currículo! Você descobriu o Rá-Tim-Bum, hein? (risos) Mas é verdade. Acho que tudo faz parte do artista globalizado. Se eu quero tocar e não estou satisfeito com os festivais existentes no Brasil, no lugar de reclamar eu vou lá e tento organizar um. Adoro ler revistas, se acho que faltam entrevistas, no lugar de reclamar eu vou atrás e faço as entrevistas, e por aí vai... Com o caso dos filmes, é paixão mesmo. Amo cinema e música, então precisei dar um jeito de juntar os dois. È muito, muito, muito trabalho, mas vale à pena. Pra parte final estávamos pensando numa espécie de "bate bola", pra descontrair a entrevista no final e poder mostrar algo mais da personalidade do entrevistado além de apenas o trabalho dele. Chamaremos essa parte da entrevista de "Papo de Manicure". Sou ruim de futebol, mas manda ver... PAPO DE MANICURE Você lixaria e poliria as unhas de quem? Ai meu Deus.... do Raphael Rabello Por que tocar violão? Porque não consigo "não tocar". O que é pior que corda que não afina? Mulher confusa. Que música você tocaria na manicure? Alguma trilha sonora bem melosa que compus... Assim quem estivesse fazendo a unha ia suspirar... (risos) Que sonho você ainda não realizou? Putz, muitos mesmo... pra citar um babaca - ficar com o corpo do Brad Pitt em "Tróia". Que compositor você gostaria de tocar mais ainda não pôde? Queria poder tocar mais Chico Buarque. Qual o pior fardo do violonista: fazer manicure, pedirem pra tocar "aquela da novela" ou pagar as contas no fim do mês? O pior fardo é ter que lidar com esses 3 o tempo todo e ainda ver a platéia lotada de homem feio. Que recado você deixaria para os internautas? Sejam sinceros com o violão o tempo todo. Não mintam para ele, pois ele percebe e responde à altura, mentindo com o som e com as notas. Grande Tiara, obrigado pela entrevista! Para entrar em contato com Tiaraju Aronovich, mande um e-mail para tiara_aronovich arroba yahoo.com |