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ENTREVISTA: Ronoel Simões
por Alvaro Henrique com colaboração de Alda Regina Minioli

Ronoel Simões

Num bate-papo bastante informal, conversamos com essa figura histórica do violão que é o Ronoel Simões. Ele nos recebeu em sua casa prontamente e com carinho, mais uma prova do seu amor ao violão e o seu interesse em estar sempre próximo dos violonistas. Figura modesta, Ronoel evita falar de si e sempre é generoso com os músicos.

Como o senhor vê a diferença do interesse do público do violão hoje e nos anos 50?

Eu me lembro que em 1950, 60, o violão tinha mais entusiasmo aqui do que hoje, né? O violão está mais distante. Aquele tempo eu era amigo do Sávio, também fui amigo dele, sabe? Eu não estudei com ele, porque quando ele chegou aqui eu já estudava com outro –estudei um pouquinho de violão. Eu comecei em 41 com o Bernardini, um outro professor.

O Atílio Bernardini, que lançou um método?

Pois é. E depois quando o Sávio chegou eu já era amigo do Bernardini e não parei com ele. Mas fui sempre muito amigo do Sávio, freqüentava a casa dele, estava sempre junto com ele. Amigo da Dona Yuki, a esposa dele, também, nós éramos muito amigos, estávamos sempre juntos. Mas aquele tempo o violão tinha mais público do que hoje. Os recitais iam bastante gente, viu? Ia muita gente. Hoje vai pouca gente, não há muito interesse. Não sei se a televisão que influiu nisso, essas coisas, né? Mas a gente, os que tocam violão aí, eu digo pra eles ó: vocês devem fazer o que pode, devem tocar, se exibir, gravar discos, compreende, pra difundir o instrumento.

E você acha que tem alguma forma, hoje em dia, pra atrair tanto público quanto naquela época, o senhor vê alguma alternativa?

Bom, eu acho que o violonista tem que se esforçar sempre pra mostrar um violão bom, né, um programa bom, sério, né? E procurar tocar direito, tocar bem, pra ver se cada vez melhora mais, né? Mas a gente faz o que pode, né? Algum violonista aí se queixa que tem poucos alunos, porque aqui em São Paulo tá havendo uma coisa aqui de muitas escolas de graça aqui, eles dão aula de graça, a prefeitura mesmo dá aulas de graça, em escolas aí, sabe? De maneras que isso também prejudica os professores, né? Quem dá aula por mensalidade, isso prejudica. Mas você deve fazer o possível pra tocar pra diante, fazer o que pode, né? A gente que gosta do instrumento nunca desanima, né?

Eu conheço o Geraldo Ribeiro, também é meu amigo, né? O Grilo, eu também já me comuniquei com ele, sabe? A esposa dele já me escreveu também, sabe, porque ele não estava em Brasília e ela que me escreveu. Mas aqui tem muitos bons violonistas em São Paulo.

A maioria dos bons violonistas, aliás, estão em São Paulo, pelo menos quando a gente fala de violão erudito.

No Rio tem também bons violonistas. Mas a gente tem que procurar fazer o que pode em benefício do instrumento, né? Tocar, divulgar, tocar músicas boas em locais bons, procurar apresentar o violão bem, né? É muito importante isso.

O senhor poderia falar um pouco da sua vida como violonista? As pessoas te conhecem como colecionador, mas poucos sabem que você também toca violão.

É, mas eu nunca fui violonista não, sempre tomava parte em algum recital aí, tocando não sozinho, sempre toquei junto com outros também. Tocava junto com o Sávio também, né, e com outros aí, mas eu nunca me dediquei a tocar violão mesmo, sabe? Nesse ponto eu era um pouco inteligente. Eu sabia que pra tocar bem precisava estudar muito, e pra tocar mal então não me interessava. Nunca fui violonista, não. Sempre toquei alguma coisa, mas fraco. Era um violonista muito fraquinho, aí (risos). Mas eu estudei, estava sempre no meio do violão. Eu comecei em 1941 e sempre no meio do violão, sempre quando vem violonista de fora eu procuro me comunicar com eles, estou no meio do violão, gosto de estar no meio do violão. E gosto de ter as músicas, discos, livros sobre violão também tenho, mas tocar violão nunca toquei, tocava fraco, muito fraquinho assim...

O senhor trabalhava em quê?

Eu comecei a trabalhar como professor de violão em 1953. Antes eu trabalhava com outras coisas. Eu e meus dois irmão tínhamos um barzinho muito micho, muito pequenininho. Comecei com o violão, a dar aulas em 1953.

Com relação à sua coleção, quando o senhor a começou? Como o senhor a começou? Em que pé ela está hoje?

Eu comecei também em 1941, junto com meu estudo de violão, porque eu pensei que quem estuda violão tem que ouvir os violonistas, né, e então gostava de ouvir os discos. Eu me lembro que comprei cinco discos. Naquele tempo era o 78 rpm, o disco custava 12 mil réis cada um. Me lembro que era um do Canhoto, um do Dilermando Reis, um de Mozart Bicalho e dois não me lembro, outros populares aí. Comecei a comprar discos naquela ocasião. Música de violão eu também comecei a comprar algumas, mas ultimamente, a partir de 1977, por aí, comecei a colecionar também muita música, tudo que cai na minha mão eu guardo, geralmente. Livros sobre violão também, sobre a literatura do violão tenho bastante, gosto de ter. E agora tem os DVDs, né? Tenho já bastante DVD e CD, mas eu gosto do violão em geral. Sou mais clássico que popular, mas gosto do popular também. Gosto da música popular, o nosso cateretê, tudo, eu gosto no violão, porque eu ouço isso, né? E eu gosto do flamenco também, as músicas regionais da Espanha e de outros países também, gosto do flamenco de todos os países. E tem uma porção de discos sobre todos os regionais, flamenco, mexicano, gosto desse tipo de música. Em violão, gosto de tudo. Violão com orquestra também. E estou sempre no meio dos violonistas. Quando vem os violonistas de fora eu falo com eles. Fui amigo da Maria Luísa Anido, uma argentina que veio tocar aqui, foi pra Cuba e morreu na Espanha, parece com 89 anos. Fui amigo do Abel Fleury, outro violonista que esteve aqui. Fui amigo do Dilermando Reis, do Villa-Lobos, fui amigo dessa gente toda. O Villa-Lobos, por exemplo, falei com ele bastante sobre violão. Isso foi em 1943, que eu falei com ele a primeira vez, e ele me atendeu muito bem lá no Rio, eu fui passear no Rio e falei com ele, né? E meu interesse ali era pesquisar sobre discos de violão, procurar sobre discos. Eu falei com o Villa-Lobos e com outros violonistas também, Segovia, falei com ele.

O Segovia já esteve na sua casa?

Não, o Segovia nunca esteve aqui em casa mas eu ia encontrar ele nos concertos. O Segovia, eu assisti aqui várias vezes. A primeira foi em 1942, ele tocou dois recitais no Teatro Municipal daqui. Um em solo de violão e outro com orquestra, né? Programas de violão de orquestra.

Na época ele tocava só o Tedesco?

Tedesco e Ponce. O Concierto Del Sur de Ponce e o de Tedesco. Eu me lembro que eu tinha um ano de violão mas eu gostei muito. Falei com ele, cumprimentei só, mas posteriormente ele tocou aqui em 47, 50, 57, tocou várias vezes aqui, assisti, e sempre falava com ele. Falava com ele sobre o violão, sabe? Os outros violonistas também, quando passam por aqui. Aquele Juan Mercadal, cubano, que até ultimamente eu descobri... O Gnatalli tem uns concertos pra violão e orquestra, né? O número 1, o Dilermando Reis gravou. Eu até pensava que fosse dedicado a ele, mas é dedicado ao Juan Mercadal.

Eu achava que era dedicado ao Dilermando!

Não, não é. Eu vou receber esse concerto, dos Estados Unidos. Um americano tem ele, ele até já me mostrou a partitura.

Sei quem é, é o David...

Jerome. David Jerome. Ele e um outro mais têm esse concerto e eles vão me mandar. Eu pensava que era dedicado ao Dilermando, porque foi ele quem gravou, foi o único que eu conheço que gravou. Agora, o número 2 é dedicado ao Garoto. Eu tenho pelo Garoto, pelo Raphael Rabello, por outros mais aí. Os outros tenho também pelo Laurindo, José Menezes, e o número 1 eu achava que era dedicado ao Dilermando, mas é ao Juan Mercadal, que é um cubano que esteve aqui no Rio, e no Rio ele se tornou conhecido e amigo do Gnatalli. Eu me tornei amigo desse cubano também, ele era muito bom violonista.

Nesse tempo em que o violão estava no auge, nos anos 50, com quais violonistas você teve um contato mais íntimo?

É, conheci uma porção. Fui muito amigo do Dilermando Reis, do Garoto. O Garoto, eu conheci ele em 1941, foi quando eu comecei a estudar violão, porque ele estudou violão com o Bernardini também. Eu comecei em 41 e fui até 47 e o Garoto estudou em 1937. Então, ele em 41 morava no Rio mas vinha aqui em São Paulo, ele tinha família aqui também, e ia visitar o Bernardini, que tinha sido professor dele, e lá que nós nos conhecemos, e eu me tornei muito amigo dele. Ele gravou muitos discos pra mim particular. Em 1950 ele me gravou muitos discos particulares, sabe, que eu conservo até hoje. Já passei pra CD também.

Algumas foram até utilizadas naquela coleção Memória Musical Brasileira, né?

É, foi lá. Foi a dona Myriam, né?

Myriam Taubkin?

É, foi. Foram incluídos lá também. De maneras que, sempre junto com os violonistas. Estou sempre junto com os violonistas.

E o senhor têm acompanhado essa nova geração de violonistas brasileiros?

Sim, acompanho sim. Nós temos bons violonistas aqui, tanto no Rio, em toda parte. Eu acompanho sim, gosto muito dos violonistas, temos bons violonistas aqui.

Quando o senhor começou a colecionar discos era ainda muito forte aquele violão de seresta, o violão do Dilermando, em seguida vem uma revolução com o violão do Garoto, um violão mais rítmico, o violão da Bossa Nova, e em seguida vem a geração que assimilou muito bem o repertório segoviano, as idéias do Segovia, e hoje vivemos um outro momento de mudança de concepção sonora, com o Fisk, o Yamashita, com outra proposta, um violão com mais ruído. O que você acha de cada uma dessas fases do violão, quais as vantagens e desvantagens de cada uma, aonde deve ir o futuro?

Eu aprecio todos os gêneros. Inclusive, aquele tempo era o tempo da seresta mesmo, mas tinha violão clássico também. Já apareciam violonistas clássicos também. Mas eu gosto, hoje até da vanguarda eu gosto. A vanguarda em violão eu gosto, viu? Porque ouvindo bastante a gente acaba entendendo e gostando. Aquelas peças do Henze, que é um alemão, ele tem duas sonatas, tem uma que tem trinta e dois minutos, é bem vanguarda aquilo, sabe? E tem do Hallfter, e tem uma porção de outros aí, o Leo Brouwer, né? O Behring tocava muita música de vanguarda e muitos outros, eu tenho muito disco aí tocando vanguarda. Eu gosto de tudo isso. Eu acompanho isso tudo e gosto disso tudo. Por exemplo, a música do Marlos Nobre, do Krieger, é moderno mas ouvindo várias vezes você acaba gostando. Elas têm um conteúdo, é coisa boa, né? De maneras que aceito tudo e acho que tudo funciona. Agora, o tempo que eu comecei o violão tinha mais público, acho que é efeito que não tinha televisão como hoje, né? Então quando se anunciava um concerto de violão, muita gente ia, havia mais interesse, viu? Até os próprios músicos não violonistas, como no Rio o Lorenzo Fernandes, iam nos concertos de violão. Havia muito interesse, sabe? E hoje nesse ponto caiu.

A qualidade da gravação também influi? Pois hoje um CD tem uma qualidade de gravação muito boa e a pessoa já se satisfaz com aquilo, sai menos pra ver ao vivo...

Também. Hoje tá complicado porque já tem o DVD. O DVD de um lado vai ajudar muito os violonistas, mas de outro lado ele prejudica. Você vai tocar, por exemplo, vai dar um recital aí e eu falo pra mulher “eu não vou, porque eu já conheço ele, já tenho os DVDs dele, aí (risos), já ouço ele e vejo ele, então tem esse negócio também, que aquele tempo não tinha. Isso é coisa da época mesmo. De maneras que naquele tempo havia mais entusiasmo talvez por esse motivo, era uma coisa mais rara.

Se você queria ver música bem feita você tinha que ver ao vivo, né?

É, tinha que ir ao teatro, não tinha jeito. Hoje você já não precisa ir, tem os discos, tem os DVDs, tem tudo, né? Eu já tenho muito DVD de violão, mais de cem DVDs de violão. Eu recebo de fora e mando gravar aqui do vídeo pra DVD. Esse dia mesmo eu recebi sete DVDs de violão. Coisas muito boas, daquele Michelli, Lorenzo Michelli, um italianinho que toca muito bem. E até tem lá uma peça de Sor feita pelo Llobet, variações sobre Folias de Espanha, e um trecho lá ele toca só com a mão esquerda. Mas toca bonito, tira som, viu? E foi num recital ao vivo, lá nos Estados Unidos, parece que foi no Texas.

Só com a mão esquerda?

É, só com a mão esquerda. Mas ele tira som bonito, fica bonito, trabalha muito bem. E eu acompanho todos esses violonistas, esses modernos, tudo. Garoto, eu conheci em 41 e já comecei gostando dele. Aquele choro moderno, bonito, e ele tocava aquilo de um modo muito bonito, impecável, muito bem. O Garoto era extraordinário. Suponhamos, eles tocam essa Desvairada dele e tem lá um negócio difícil de fazer, umas tercinas, mas o Garoto brincava com aquilo, sabe (risos)? Ô, ele tocava muito bem aquilo, sabe? Mas ele não gravou aquilo em violão não, gravou em cavaquinho a Desvairada. Eu tenho aí por ele em cavaquinho, mas ele tocava muito bem, era um violonista que dominava, principalmente as músicas dele. Outras músicas clássicas ele não tocava muito bem, não. Por exemplo, ele gravou as valsas de Chopin, a valsa do Adeus e aquela op. 34 no. 2 e não estão muito bem não, sabe? Já não era muito o estilo dele. Gravou também Astúrias, do Albéniz, e outras coisas que não estão muito bem. Mas no choro ele era muito bom, tocava muito bem, com muita graça, muita perfeição. Esse Jorge do Fusa tocado por ele é uma beleza (risos)! Tem gente que toca bem, também, mas ele toca de um jeito especial, dominava mesmo o violão. Era muito estudioso, estudava muito sério, o Garoto inclusive levou para o túmulo um grande acúmulo de conhecimento, ele conhecia tudo sobre o violão, viu? Sobre violão clássico também conhecia. O clássico ele não conhecia tanto assim, ele inclusive tocava uma música que ele dizia que era de Haendel aí eu falei pra ele um dia “Garoto, escuta, isso aqui não é de Haendel, não, é de Haydn.” É uma peça de um quarteto de Haydn para alaúde. Ele pensou que era de Haendel, mas era de Haydn. Eu corrigi ele, mas ele tocava tudo muito bem tocado, tocava clássico também, bem tocado. E outros violonistas, né? O Dilermando também, não sei se você acompanha, ele é mais popular, mas ele toca bem bem, né?

Ele gravou música clássica também, Villa-Lobos...

Também, né? Tem coisas dele, do Dilermando, por exemplo, aquela Pavana de Tárrega tocada por ele é uma beleza, sabe? Muito bonito, ele faz aquele pizzicato muito bem, com muita graça, muita perfeição (risos). Mas eu estou sempre acompanhando, na medida do possível, acompanhando esse movimento do violão. Tudo que aparece. Flamenco, eu gosto muito também, sabe? O Flamenco, você ouvindo bastante, alguns violonistas falam que é tudo igual, mas não é igual não. Cada música é de uma região, viu? Tem as Granadinas, as Soleares, tem a Tarantas, tem a Malgueña, tem a Rondeña, e tudo são músicas, cada uma de uma região diferente, e eu de tanto ouvir já distingo bastante se é de um região ou outra. Até há uns tempos atrás passou aqui um violonista flamenco que veio da Espanha, e eu nem conhecia ele antes. E ele falou que nesses dias ele tinha feito uma composição de flamenco. E tocou um pedacinho da música. Aí eu falei “muito bem, está em forma de campanillero, né?” “É, tá certo, é campanillero, mesmo.” Eu conheci aquela forma de campanillero, é um gênero de música que eles têm lá. Eles tem lá os soleares, os fandangos... Fandango, tem o fandango de hueva, o fandango por medio, o fandango corriente, e eu estou mais-ou-menos familiarizado esses tipos. Eu ouço muito isso também, eu gosto de flamenco. Eu gosto de tudo, de todos os gêneros. De maneras que, sendo violão, me interessa tudo. Gosto também de violão com orquestra, esses concertos com orquestra, se o violão for bem trabalhado, se ouve bem, viu? Aqueles quintetos de Boccherini, por exemplo, muitas vezes a gente ouve e não satisfaz muito, porque os instrumentos cobrem muito o violão, mas eu tenho, por exemplo, a Louise Walker, austríaca, que morreu há poucos anos, com ela ficava bonito aqueles quintetos de Boccherini, porque ela sabia distribuir aquilo, viu? Ela que mandava lá no quinteto, ela que dava ordem, então o violão dela se ouvia, se ouvia muito bem.

O violão, apesar de ser um instrumento de som muito delicado, mas sabendo trabalhar com ele é possível ouvir num orquestra. Inclusive, o Villa-Lobos tem uma estória que ele foi tocar aquilo nos Estados Unidos, na cidade de Houston, o concerto dele, o Segovia no violão e o Villa-Lobos regendo, tocaram lá num concerto, sabe? E nessa parte do concerto de Villa-Lobos tem um trombone lá que é um pouco forte, viu (risos)? Então, na escrita geralmente se põe ppp, pianíssimo. E lá puseram pppp – quatro pês. Era pra tocar bem piano, viu? E no fim do concerto o Segovia perguntou pro público “Como é, a minha guitarra foi ouvida?” Falaram “ó, a sua guitarra foi ouvida, o que não se ouviu foi a orquestra” (risos) Porque o Segovia era muito exigente, exigia muito silêncio, inclusive quando ele veio tocar aqui em São Paulo em 42, eu fiquei conhecendo depois um violinista que tocava lá no Teatro Municipal. E esse violinista tornou-se meu amigo muito depois, e ele me disse uma vez “escuta, Simões, nesses concertos que o Segovia deu aqui com a orquestra, o regente era o maestro Souza Lima, mas quem mandava lá era o Segovia. Ensaiando, tocando, quem dava ordem era o Segovia. Então o Segovia dizia ‘escuta, esse cello aí está muito forte, quero isso mais fraco, mais longe.’ Era ele quem organizava, e todo mundo obedecia.” Ele era autoridade, falava com segurança, de maneras que o violão, sabendo trabalhar ele direito com orquestra, fica bom, fica muito bom. Pode tocar muito bem.

Nos anos 50 você, junto com o Sávio e outros violonistas, fundou uma associação de violão. Você pode dizer mais dessa associação, como ela funcionava, até porque hoje em dia é um sonho criar uma associação de violão em São Paulo...

Havia muito entusiasmo, justamente. Tinha a Sociedade do Sávio e antes do Sávio também já teve aqui outra sociedade que quem estava mais à frente era o Bernardini, era o Clube dos Violonistas, Clube do Violão, tinha também aqui. E havia muito entusiasmo naquele tempo, mais do que hoje. Suponhamos, nós estamos falando do interesse pelo violão. Nós tínhamos aqui a revista Intercâmbio, você conhece?

Sim, claro. Fui assinante dela.

Pois é. Uma cidade como São Paulo, uma cidade grande, não tem atualmente uma revista sobre violão. Tinha aquela revista Intercâmbio, a mensalidade era R$ 20 por ano, e não conseguiu sobreviver. O pessoal não tinha interesse, não pagava, não era sócio, não pagava a revista. Eu tenho a coleção inteirinha, pra mim eu tenho. Mas, então, há esse desinteresse hoje. Naquele tempo havia muito interesse. No Rio de Janeiro em 1929 tinha a revista O Violão, não sei se você conhece. Eu tenho isso. Saíram 13 números.

E em outros estados tiveram outras revistas só de violão?

Tem também. O Sávio, por exemplo, ele me mostrava aqui. O Sávio viajava o Brasil todo dando concertos de violão, ele também dava concertos antes. E ele me mostrava os programas de concerto e ele costuma pôr no rodapé do programa o número da audiência do concerto. Então em cidadinhas pequenininhas, sabe, como se fosse Jundiaí, uma cidadinha aqui do interior, a freqüência era 300, 320 pessoas, era bastante pra uma cidadinha pequenininha. Hoje não vai.

Em metrópoles não vai.

É, não vai. Naquele tempo ia. O Sávio me mostrava. Eu tenho aqui alguns dos programas dele, e tinha lá “audiência: 320 pessoas.” E assim por diante, viu. Ele, o Barrios, ele também dava muito concertos aqui pelo Brasil. O Barrios eu não conheci pessoalmente, ele foi um pouco antes de mim. Mas, naquele tempo tinha aquele entusiasmo mais do que hoje. Hoje não sei se a televisão despertou essas coisas tudo, não sei. E aquele tempo também o violão era acústico de seis cordas. Hoje tem violão de sete cordas, de dez, mistura tudo, e violão elétrico, e muita gente já não gosta, isso acaba dispersando o público. Não há aquele violão puro daquele tempo. Me lembro que o Sávio me falava – ele não me chamava de Simões, me chamava de muchacho – “É, muchacho, eu assisti um concerto do Manjón, na Argentina. Estou acostumado a ouvir essas sonatas de Sor no nosso violão e ele apareceu tocando essa sonata num violão de onze cordas. Dá umas notas lá que não são do violão.” Eu não gostei, e o Sávio também não. De maneras que isso naquele tempo era muito raro, hoje tem muita coisa aí, violão de sete cordas, dez cordas, de oito, né, tem muito. E o Yepes apareceu tocando com dez cordas e hoje tem muita gente aí tocando com dez cordas. Até, falar em Yepes, eu conversando com o Segovia, uma hora lá não sei porque falamos no Yepes. O Segovia falou “É, Yepes e sua guitarrasso.” (risos), falou caçoando. Ele não gostava também disso. Ele não tolerava violão de mais de seis cordas e nem violão elétrico também. E violão com palheta então, nem se fala.

De maneras que aquele tempo o violão era mais puro do que hoje. Hoje tem muita misturada, né? Eu tenho aí também disco com violão de sete cordas aí, até tenho um estrangeiro que toca músicas russas feitas para violão de sete cordas, porque na Rússia também se usava violão de sete cordas antigamente, né? Violão sério, valsas de Chopin tocadas no violão de sete cordas. Mas naquele tempo era pouco volume, hoje tem muito volume. Muita gente tocando é sete cordas, é oito cordas, é dez cordas. Por exemplo, esse Paul Galbraith, é um excelente violonista. Eu tenho um disco dele antigo tocando as Folias de Espanha de Ponce e outras coisas, muito bem tocado, bonito, com violão de seis cordas. E agora ele está tocando violão de oito cordas e já passou pra dez agora. Já está em dez cordas (risos)! De maneras que isso também dispersa bastante o interesse de muita gente. Muita gente não gosta, sabe? Muita gente fala “ah, prefiro aquele violão antigo, o nosso violão”. Esse violão com dez cordas, oito cordas, eu não gosto, já não é mais o som do violão, sabe? Mas tem isso. Acompanho tudo sim.

Informalmente, nos festivais, nos eventos, nas ruas, se ouve muito boato a respeito do futuro da sua coleção. Tem gente que diz que já foi vendida de antemão, um diz que não, outro diz que sim, um fala que vai pro Japão, outro pros Estados Unidos, o que o senhor tem a falar sobre esses comentários?

Sobre o meu arquivo de discos e música, já muita gente quis comprar sim. A Fundação da Guitarra Americana, eles já estiveram aqui, quiseram comprar, e outros mais, até daqui, o pessoal do Museu da Imagem e do Som (MIS), quiseram comprar, e outros mais aí, até uma porção. Mas nunca pus à venda isso. Eu nem sei quanto vale isso. Não sei, nunca pus. Quando eles me perguntam, uma vez o Armando Faro do MIS me telefonou, há uns anos atrás, propondo a compra do meu arquivo. Eu disse “olha, seu Armando, eu estou comprando. Não estou vendendo nada, ainda estou comprando” (risos). E estou comprando mesmo! Até agora estou comprando, estou sempre comprando. Essa semana, eu recebi sete DVDs dos Estados Unidos. Recebo do mundo todo. E pago caro aí no correio. Eu pago aí 60% de imposto de importação, imaginou? Fica caro toda a vida. Mas a gente gosta, então, de maneras que nunca pus à venda, nem sei quanto vale. Continuando comprando e não vendendo. É puro boato. É boato. A Fundação da Guitarra Americana, lá de Los Angeles, já quis comprar, e outros mais, mas eu nunca nem pus preço, não tem preço nenhum. Estou sempre comprando e não vendendo. De maneras que é isso, são boatos falsos.

E vem muita gente procurando o senhor pra pesquisar material, conhecer outras coisas?

É, procura sim. Ainda hoje, deixa eu ver, hoje é quinta-feira, né? Sábado de manhã vem aqui uma senhora aqui, do ABC, Dona Heloísa. Ela vai fazer um trabalho sobre Villa-Lobos, né? Então, ela vem aqui pesquisar sobre Villa-Lobos e outros mais aí.

Então o senhor tem sua coleção por interesse próprio em ter o material, mas muita gente que estuda o assunto e saiba que o senhor tem coisas raras pode vir aqui conversar, pedir uma ajuda, contar com a sua colaboração?

Sim, eu atendo todo mundo sim. Vem muita gente sim, pesquisar. Até de fora, me escrevem de fora. Sempre aparece um camarada que chega aí e diz “Escuta, eu tenho aqui um CD, um negócio aqui que eu não sei o programa, o senhor pode me ajudar em saber o que é?” E eu digo “Pois não.” Alguma coisa que já está no repertório do violão eu já conheço, e sempre procuro auxiliar eles na medida do possível. Vem sempre gente aqui pesquisar, sim.

É uma maneira de conhecer outras coisas também.

É, também. Eu tenho muito conhecido, minha rede de correspondentes é muito grande. Hoje em dia caiu um pouco, eu já estou com muita idade – 86 anos -, a vista já está ruim, já está fraca...

Mas o senhor estava lendo sem óculos! (risos)

É que se pôr o óculos fica pior! (risos)
Mas eu estou enxergando mal... Dá pra enxergar aí, mas não enxergo bem não, viu?

Mas, muita gente me procura sim, sobre pesquisa de material, e eu sempre procuro ajudar dentro do possível. Tenho colaborado até bastante com isso. Eles me escrevem aí do exterior, dizendo que tem uma música aí que eles não conhecem, e muitas vezes eu conheço.

O senhor manda muita correspondência?

Sim, me correspondo muito com outros países. Tem até uns que me escreveram agora da Tchecoslováquia, da Noruega, ultimamente eles vêm me escrevendo. E eu vou respondendo, à medida do possível. Estou sempre em atividade. Atualmente estou me correspondendo com uma mocinha que não sei se é mexicana, espanhola ou do Novo México. Ela me mandou quatro CDs dela – e ainda tem mais. Eu já mandei também CD pra ela – e toca bem. Não sei o sobrenome dela, mas ela assina só Ana Maria.

O senhor já está craque em várias línguas, então.

É, eu escrevo em espanhol, inglês e português, mas meu inglês é fraquinho, sei pouca coisa aí... Eu estudei um pouquinho de inglês em 1952 exatamente pra me auxiliar nas cartas que eu já recebia. Mas meu inglês é muito fraquinho, dá pra entender, eles conseguem entender. Minhas cartas são muito resumidas quando é em inglês. Em espanhol eu já me defendo bem, é quase igual ao português. Inclusive eu me correspondia com o filho do Tárrega, ele me mandou uma foto assinado do pai, isso foi em 1952, eu me correspondia com toda essa gente do exterior. Da Argentina também, a Sociedade de Violão Argentina, a Sociedade de Violão de Nova York, eu me correspondo com toda essas sociedades. Gosto de estar em contato com essa gente.

Inclusive, quando eu falei com o Villa-Lobos – a primeira vez foi no Rio, em 1943 – e me apresentei a ele como colecionador de discos de violão. Eu falei “Eu moro em São Paulo, estudo violão há dois anos e também coleciono discos de violão há dois anos.” Aí ele falou: “Coleciona discos de violão?” Ele falou com admiração, viu, não foi caçoando, não, falou com muita admiração. Até me lembrei, naquela situação ele disse: “Poxa, estou perante um molecote aqui que pelo menos gosta de violão, coleciona discos de violão.” Então ele gostou muito. “Coleciona discos de violão?” E eu falei “É. E lá na minha coleção tem um disco do senhor.” Ele tinha gravado em 1940 o Choros no. 1. Até eu era muito ingênio naquele tempo, e no outro lado do disco não era violão, era o Choros n. 2 pra flauta e clarinete. E quando eu já ia embora, eu na minha ingenuidade: “Escuta, maestro, a gente gosta muito daquele seu Choros no. 1 mas aquele Choros no. 2 é meio esquisito, é choro aquilo?” (risos) Claro que era choro. Se ele pôs lá que era choro, era choro, só que era um choro diferente, né? (risos) Ele pôs a mão no meu ombro e disse. “Esperaí, deixa que eu vou te explicar. É um choro, mas ali são dois matutos que se encontraram e não se conheciam nem tocavam nem flauta, nem clarinete. E um perguntou pro outro ‘Ah, você toca flauta? Eu toco clarinete. Vamos fazer um choro?’ ‘Ah, vamos.’ Aí começaram tocando, um vai pro lado, outro vai pro outro, depois eles se encontram, né? (risos)” E o Villa-Lobos depois me explicou o significado, mas ele me explicou com detalhes, eu já nem lembro mais o que era. Até quando eu cheguei em São Paulo o flautista aqui, José Carrasqueira, o velho, eu era amigo dele. Aí quando eu cheguei eu contei o caso pra ele e ele “Poxa vida, mas aquele choro demonstra aquilo mesmo! São dois que não tocavam nada, depois foram melhorando e foram se encaixando. É isso mesmo. Que beleza de explicação que ele lhe deu” Ele me deu essa explicação bonita sobre o Choro no. 2. Mas, eu na minha ingenuidade cheguei pra ele e disse “Maestro, isso aqui é choro?” (risos) Na hora ele se atrapalhou um pouquinho, porque a gente fala com muita ênfase, mas é choro, é choro sim, só que é um choro diferente, é outro tipo de choro. Ele me explicou tudo isso.

PAPO DE MANICURE

Que sonho você gostaria de realizar que ainda não pôde?

Nada. Eu geralmente, o que tinha que realizar, era colecionar meus disquinhos, minhas músicas, meus livros sobre violão que eu tenho bastante, e gosto de estar no meio dos violonistas. Tenho muitas amizades. Tudo o que eu queria realizar estou realizando. Na medida do possível, pois a gente trabalha com muita dificuldade. A gente vive colecionando discos, mas o que vem de fora é muito caro, né?

Agora, eu fico chateado com certas situações do violão, por exemplo, o xerox. O xerox é uma grande coisa em muitos sentidos, mas também acabou com o violão, ele prejudica muito o violão. Os compositores hoje – se bem que hoje tem a internet, que você consegue muita música que não consegue de outro jeito, né? – não tem mais estímulo pra compor, porque as músicas não são editadas. Você vê aqui, São Paulo, que é uma cidade grande, só tem uma casa de música, só a Vitale, mais nenhuma. Na semana passada fechou a Fermata. Então ninguém mais compra música de violão, eles pegam na internet, que a internet dá muita coisa de graça, até gravações, que de um lado é até bom, mas de um certo modo prejudicou, né? Os compositores não tem mais estímulos hoje pra compor, porque a música sua nunca é impressa. Às vezes vem aqui um compositor dizendo que tem uma música aí pra imprimir, será que é possível? Ih, hoje é difícil. Eu dou aí o endereço, você vai aí na editora ver se você consegue, mas eles põem muito obstáculo, porque o pessoal não compra música, só uma pessoa compra a música e depois xeroca, dá pros amigos, isso prejudica muito. Agora, o xerox tem muitas vantagens. Hoje eles escrevem no computador, muito bonito, bem escrito, e naquele tempo não se conseguia. O xerox prejudicou de um modo mas favoreceu de outro.

Que gravação você gostaria de ter na sua coleção?

A maioria do que eu já queria ter eu já tenho. Eu devo receber ainda esse ano uma gravação do Tárrega, ele mesmo tocando. Eu já tenho aí. Eu recebi da Suíça só que esse que me mandou da Suíça é o autor da Enciclopédia do violão, o nome dele é Herrera, sabe? O senhor Herrera me mandou já isso, mas a gravação está cortada em três lugares. Eles fizeram de propósito, porque eles não podem mandar a coisa definitiva ainda. Então é aquela Maria-Gavota, de Tárrega, com ele mesmo tocando. Então, esse disco eu devo receber completo ainda esse ano, assim que sair eles me mandam. Dá pra ouvir, mesmo cortado, ver como Tárrega tocava. Ele gravou isso em 1892, é o disco mais antigo que conheço em violão. Ele gravou isso em cilindro, era um processo diferente, nem era disco ainda. De maneras que esse é um disco que gostaria de receber, mas quando sair eles me mandam, eu tenho amigos que quando sair lá eles me mandam. Me parece que nesse mesmo disco, que só tem uma música de Tárrega, vão completar com outros alunos dele, como Fortea, Pujol, Llobet, outros que talvez vão incluir junto com Tárrega – o professor e seus alunos. Esse é um disco que eu gostaria de receber, mas quando isso sair, eles me mandam – se eu estiver vivo até lá, eles me mandam.

O que tem na sua coleção que você não troca por nada?

Tem muitos discos aí, pra mim todo disco aí tem o mesmo valor. Qualquer disco que eu recebo tem o mesmo valor, porque eu gosto de todos eles, aprecio todos. Atualmente a gente ouve uns aí mais interessantes, mas gosto de todos eles. Tenho muitos discos aí históricos, também, mas gosto de todos eles. Inclusive, tem uma amiga americana, chamada Alice Artzt, que já até esteve aqui, tenho os discos dela, ela me manda tudo. Nós gostamos muito daqueles discos quando é muito mal tocado, viu? (risos) Coisa pândega, bem mal tocada. E eu tenho aí um Capricho Árabe que é bem assim, e outras coisas mais, tem uma porção. Mas eu tenho aí um Capricho Árabe que um violonista gravou aqui em 1929 como teste de gravação, mas a gravadora Columbia não lançou na praça, mas é uma coisa cômica. A Maria Luísa Anido, quando ela esteve aqui, eu toquei o disco pra ela e ela ria muito, chegou na Argentina ela me escreveu uma carta só falando disso (risos). É muito curioso. O violão se atrapalha, dá um harmônico na casa 12, se atrapalha todo, começa de novo, enrola, de modo que esse é um disco muito engraçado, nesse aspecto. Mas eu tenho muito disco aí interessante, não tem nada que se destaca, não, tem uma porção, todos iguais. E eu gosto de violão inclusive em duo de violão, trio de violão, gosto também. E tenho muitos discos. Quarteto de violão, quinteto de violão, violão com orquestra, gosto, tenho uma porção. Mas não tem um que se destaca, são todos iguais.

O senhor já teve de fazer algo inusitado pra conseguir alguma gravação ou partitura?

Eu me lembrei de um caso. Eu tinha um amigo, que nem vou dizer o país, na Europa. Eu me correspondia com ele há muitos anos atrás e eu queria receber um disco lá que pertencia a uma coleção de discos da história da música, e ele me escreveu “Escuta, esse disco está numa coleção de 20, 30 discos de história da música e não se consegue isso. Eles não dão cópia, não fazem nada, não tem jeito.” Então, ele viu meu interesse e ele me perguntou quando que ele me pagava pelo disco. E eu disse que pagava três vezes a mais. E eu não sei como foi lá, que ele sabia que eu queria o disco, e ele conseguiu roubar o disco e mandou pra mim, e eu tenho o disco até hoje, é bem raro. (risos) Ele que conseguiu lá o disco, e paguei pra ele. Esse foi um caso raro. Teve um argentino também, na verdade um paraguaio que morava na Argentina, o Quirino Baez Allende, e eu soube que ele gravou um disco na Columbia Argentina muito antigo, um 78, e eu disse que eu pagava pra ele cinco vezes mais que o preço. E, coitado, ele andava sempre ruim de dinheiro. E eu disse que se ele quiser me mandar o disco, pode deixar na casa Chica, uma casa que sempre manda disco pra mim, e pode comprar deles pra mim. Um disco argentino na época custava três pesos, e eu falei que ele podia cobrar quinze pesos. Ele foi na casa, mostrou a carta, e pegou lá os quinze pesos. A casa depois me mandou o disco e tenho até hoje. Ele toca de um lado uma polca chamada Itororó e do outro lado era Laute, um Zamba. Ele me mandou, cinco vezes mais que o preço. São discos raros, mas tem muito disco raro, e estou sempre pesquisando isso. Tem discos particulares desses violonistas. Maria Luisa Anido, Garoto, gravaram pessoalmente coisas pra mim quando vieram a São Paulo que eu tenho até hoje. Até hoje eles gravam também. De maneras que eu coleciono todo tipo de disco. Caiu na minha mão, eu gosto e conservo.

Que recado você gostaria de deixar para os internautas?

Eu acho que os violonistas devem procurar tocar muito bem, ouvir muita música, pra poder tocar bem e apresentar o violão da melhor forma possível. Inclusive, eu ouço muita coisa que eu não posso falar, são amigos, mas são violonistas que tocam mal, deveriam procurar tocar bem, apresentar o violão bem. Ouvindo bastante música a gente fica familiarizado com o violão. O recado que eu tenho é que o violonista deve se dedicar, apresentar o violão muito bem, estudar música, estudar solfejo cantado – eu estudei solfejo falado, tá errado. Temos que estudar música séria. O recado que dou é isso, procure tocar violão bem tocado. Porque existem as mentiras convencionais. Tinha um escritor chamado MAX NORDAU, que falava das mentiras convencionais. Muitas vezes a gente mente porque não pode falar a verdade, mas ouço muita coisa aí que está mal, o camarada deveria tocar melhor. Agora, ele faz o que pode. O problema é que geralmente o violonista não tem acesso à cultura. Ele deveria ouvir muito, ir nos concertos, ver o pessoal que toca fora. Outro dia mesmo recebi uns DVDs da Sharon Isbin tocando umas coisas de Brouwer que nunca vi ela tocar, Elogio de la Danza, essas coisas, de um jeito diferente de muitos outros, bem tocado. O violonista deveria ouvir tudo o que já está gravado pra ter referência e procurar tocar direito.

Ronoel Simões, muito obrigado pela entrevista!

Contato com Ronoel Simões: 11 3105-6620

Fotos: Alda Regina Minioli