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ENTREVISTA: Badi Assad
Por Alvaro Henrique, com colaboração de Alda Minioli

Sensibilidade, sensualidade, feminilidade, um olhar terno sobre graves problemas. Entrevistamos Badi Assad em Brasília, alguns minutos antes do segundo show da turnê de lançamento do seu sétimo CD - Wonderland.

 Badi Assad, foto de Alda Minioli            Badi Assad, foto de Alda Minioli

Apesar de uma família muito musical, você começou na dança. Por quê essa escolha?

Eu tenho que te dizer que na minha casa era tanto violão o tempo inteiro que eu achava que fazia parte do cotidiano, assim como água, comida... Então, eu nunca pensei em tocar e sempre tive um barato assim com o corpo, eu queria mesmo ser bailarina, mas tinha já uma aptidão musical muito grande, que os meus irmãos sacavam, chegaram a me ensinar uma música no violão quando eu era pequena, o Sérgio ficava me instigando a cantar, eu tive aulas de piano.

Mas só depois, com 14 anos - que pra um violonista já é tarde -, eu comecei, pra suprir a ausência dos meus irmãos na vida do meu pai, porque meus irmãos começaram por causa dele, meu pai tinha se desentendido com o violonista que o acompanhava lá, e chegou em casa e o Sérgio e o Odair tinha 8 e 12, o Sérgio 12 né, aí meu pai “Você quer aprender a tocar esse negócio aqui?” “Quero!”, pro Sérgio, “Senta aí”, aí o Odair (tudo que o irmão mais velho fazia ele queria), “Eu também quero!” “Então senta aí também.” Aí começou o duo assim.

E daí eu nasci dois anos depois, então quando eu nasci eles já tocavam e a gente viveu junto até eu completar 13 anos, quando eu acabei o 1º grau e meu pai então voltou com a minha mãe e eu pro interior de São Paulo, onde eu nasci, em São João da Boa Vista. Aí meu pai novamente não tinha com quem tocar e fez o convite pra mim.

Seu pai é bandolinista, né?

Sim, ele é bandolinista.

E o que vocês tocavam em casa?

A gente tocava sempre, a gente voltava do colégio e tinha ensaio todo dia. Rolava festa na cidade, a gente que ia alegrar as festas, tocando chorinho, o repertório todo do choro. Eu aprendi muito rápido, a mesma facilidade que meus irmãos aprenderam o repertório deles, eu aprendi. Meu pai tem um jeito dele de ensinar que é assim, fantástico. Não foram só nós três que ele ensinou. A gente sempre brinca que no sofá da casa dele sempre tem uma criança de quatorze anos. (risos) Vai envelhecendo, sai, vira músico, e entra outro. (risos) Até hoje.

Voltando à questão da dança, você fala que queria ser bailarina, e percebe-se que de alguma forma você traz isso pros seus shows.

Então, na verdade essa é minha forma de se exercitar. Fiz muito aula de dança durante a vida, e continuo fazendo assim, ao invés de fazer ginástica, faço dança, de todas as etnias... Já passei por dança do ventre, dança africana, tudo... (risos) Ultimamente eu não tenho tido tempo, mas eu acho que a dança me colocou um diferencial enquanto violonista que possibilita usar o corpo - o corpo se expressa intensamente durante as minhas apresentações, eu não me escondo atrás de um instrumento, esse corpo existe, ele é presente. Eu acho que a dança trouxe isso naturalmente. O corpo existe, portanto ele fala também.

Depois você voltou pro Rio de Janeiro, fez curso universitário...

Então, terminei o segundo grau e, fazer o quê na universidade? Quando eu fui pra São João da Boa Vista eu não despertei para o violão, eu despertei para as artes, fui fazer teatro, fui fazer dança, minha vida era intensa culturalmente, e tocava violão com meu pai. Mas na época de escolher a faculdade, pesou pra cursar música por conta dos irmãos. Aí já foi vislumbrando um futuro. Putz, eu tinha uma paixão pelas três artes com o mesmo peso e medida, e eu acho que teria me dado bem nelas. Então escolhi música, morei com o Odair e fui estudar primeiro bacharelado - nossa, faz tempo que eu não falo essa palavra (risos) -, com o Turíbio Santos. Era muito divertido porque eu tinha aula com o Sérgio e o Odair em casa aí ia lá o Turíbio e olhava (risos)... Ele me dava aula e olhava pouco (risos)! Eu sentava e tocava pra ele e ele corrigia muito pouca coisa. Eu acho que era interessante porque tinha a estória de ser irmã do Sérgio e do Odair...

É, pesava, né? Então você não chegou a pegar o Nicolas, né?

Não, isso foi anterior. Há vinte anos atrás... (risos)

E você chegou a disputar concursos, ganhar concursos, tocou num duo com instrumentos de época...

Bom, um dos caminhos, senão O caminho para o violonista erudito que está começando é participar de concursos mesmo. Não tem muito uma outra opção que tenha atalhos. O concurso é um atalho - você ganha um concurso, as pessoas reconhecem seu nome e você começa a poder fazer seu trabalho. E aí naturalmente eu comecei. Eu lembro que fazia um ano e pouco que comecei a estudar violão, comecei com quatorze, então foi com quinze e pouquinho, eu recebi uma carta do Sérgio, do Rio, dizendo "Olha, vai ter o concurso Jovens Instrumentistas, eu acho que você consegue entrar." Aí foi maravilhoso, porque ele me mandava as partituras, mas com TUDO escrito - eu estava no interior, não tinha professor, no interior eu tinha o José Lopes que me ensinou a ler partitura, mas era um senhor do interior, eu não tinha um requinte de técnica ou de interpretação, então o Sérgio me mandou aquelas partituras, mas assim, nota por nota com o que eu devia fazer. De técnica, aqui você apoia o dedo desse jeito, aqui você toca pianinho e vai fazendo um crescendo, essa nota é mais forte... O Sérgio foi o grande mentor na minha vida. E aí fui. Me preparei sozinha, e fui pro festival e ganhei, eu e o Fábio Zanon - a gente dividiu o primeiro prêmio e foi o primeiro concurso da gente. (risos) E depois fiz o Villa-Lobos, que consegui o prêmio de melhor brasileiro.

Na época que fui representar o Brasil no Chile já era um período em que eu já tinha sacado que não era na música erudita e no violão clássico que estava meu coração para seguir carreira. Eu tinha uma voz, eu descobri que era possível cantar e fazer as duas coisas junto, e eu pirei! Porque quando eu fui fazer faculdade, eu levei super a sério. Eu parei com tudo, é isso o que eu vou fazer. Então nunca mais cantei, nunca mais dancei, nunca mais fiz nada. Estudava pros concursos porque você sabe como é que é, dez, quatorze horas por dia. Aí essa época do Chile, antes de saber a resposta, eu já tinha decidido que iria voltar, entrar numa aula de teatro, etc. e tal, e aí recebi um telegrama do Chile dizendo que eu era a única brasileira a ser selecionada pro concurso. Aí baixou a responsabillidade (sou uma boa capricorniana), parei com tudo que mal tinha começado, voltei pro interior, pra casa dos meus pais, pra estudar porque o repertório era brabíssimo, assim, não tocava quase nada do repertório - tinha dois concertos com orquestra.

Aí estudei pressa estória e duas semanas antes de ir pro Chile eu machuquei a mão no ônibus, no dia em que fui pegar a passagem aérea, lá na Avenida Paulista. Eu no balcão da VARIG e a mão latejou assim, olhei, tinha um calombo de uns dois dedos de altura, eu saí, falei pra mulher, "aonde tem um hospital?", saí correndo por aquela Paulista, não conhecia São Paulo, nem lembro que hospital que tem ali perto, sei que corri até o hospital. Aí tinha lá muita gente que estava esperando há horas, mas eu estava tão apavorada que passei na frente e o médico falou: "Olha, por sorte que você não quebrou". Enfaixaram, "você vai ter que ficar enfaixada por uma semana", e faltavam só duas semanas pra eu viajar. Aí eu voltei pro interior, a hora que eu mostrei pro meu pai, nossa senhora, pro meu pai foi assim, o fim. "Putz, minha filha, e tal". Tirei a faixa uns cinco dias antes de embarcar e fui. Então, eu não tive coragem de parar, mas meu corpo teve. Foi uma somatização total.

Seu corpo mandou você parar...

Mandou eu parar. Aí eu fui, e na primeira eliminatória - ah, esses concursos são muito cruéis, se você respira na hora errada você já era... E a mão estava inchada ainda. O engraçado é que o roxo (ficou um roxão assim), só sumiu depois que eu voltei pro Brasil. Parecia meu álibi, sabe? (risos) "Mas eu machuquei minha mão!" (risos) Mesmo assim eu tinha um álibi - o que era uma verdade, assim, mais pro meu ego.

Agora o grande barato dessa estória toda era que ter o Sérgio e o Odair como irmãos - muitas pessoas às vezes perguntam se isso foi um fator opressor pra encarar o mundo tendo essa coisa "e essa irmã aí, vamos lá, comparar", mas eu tive a grande sorte de sacar muito cedo o meu som, então esse público, eles vinham e não tinha nem uma janela pra comparação. Desde cedo eu fui só aproveitando a estória de ter os irmãos que eu tenho. Sempre foram abrindo portas e sempre foi uma coisa maravilhosa.

E nessa fase de violonista clássico, como foi ser uma mulher num mundo tão masculino, especialmente no Brasil?

Mas é que na faculdade, cara, tinha outras mulheres. É engraçado porque isso nunca foi um assunto que eu tivesse sofrido, assim, preconceito. Até perceber, eu não percebia que não tinha tantas mulheres. Na minha época tinha a Maria Haro, que já tocava pra caramba, já tava dando concertos, tinha a Maria do Céu, meus irmãos tinham algumas alunas, porque também o fato deles serem professores, tinham mulheres na estória. Profissionalmente, talvez no mercado não tivesse, mas eu convivia com algumas mulheres, desde quando era pequena. Então não era uma verdade pra mim, isso. Mas de fato as mulheres não existem muito, até hoje dentro do que faço, mesmo, da música mais popular, não tem tanta mulher que toca violão e que use o violão pra fazer música instrumental também. Acho que o violão, nesse sentido, muito boêmio, e acho que as mulheres, de uma certa forma, não enveredaram muito pra essa estória da música instrumental porque é uma vida muito sofrida, né? Se você vai construir uma família, esqueça. Então eu acho que isso pesa muito. Acho eu, não tenho certeza de nada, estou dando uns pitacos aqui (risos).

Mas o fato de você ser mulher faz com que você traga uma visão diferente?

Se a gente traz alguma coisa? Traz, claro que traz. Nas energias femininas e masculinas a gente naturalmente tem essa porcentagem ativa, o que nos possibilita trazer uma sensibilidade diferenciada pra essas interpretações. Assim, eu acredito que o som que eu faço é super feminino. Mesmo quando eu tocava, principalmente as peças mais lentas, onde você pode ter um lirismo muito grande, acho que a mulher se permite ter esse lirismo sem pudor, sabe? Talvez um homem que tenha uma energia masculina muito acentuada não se permita fazer uma frase, vamos dizer, mais fresca (risos). Acho que nessas músicas mais lentas é onde entra essa sensibilidade, essa sensualidade.

Agora também tem o lado masculino e ele ataca nos momentos que precisa atacar, então ele vêm quando precisa da agressividade. Vem também. Talvez não venha com a mesma intensidade que vem num homem quando ele toca uma música flamenca - aquilo tem que ter muito bago pra tocar com aquela energia (risos). Uma mulher tocando violão flamenco é mais raro ainda, acho que por causa disso também (risos).

Eu gostaria de voltar a uma coisa que a gente falou atrás, você teve esse problema na mão na viagem pro Chile...

É, meu corpo foi sempre falando pra mim, me colocando nos trilhos (risos). Aí tive outro problema na mão, só que dessa vez não foi só uma semana com a mão enfaixada, foram dois anos que eu não conseguia fazer um acorde de dó maior. Talvez eu até conseguisse fazer um acorde de dó maior, mas um dó e um sol 7 já não conseguia. Uma sequência de dois acordes não dava. Perdi 90% de movimentos da mão. No cérebro, né, não é que doía, não tinha dor, não tinha nada, simplesmente desapareceu o domínio daqueles movimentos.

E aí foram dois anos de pesquisa corporal, mas muito mais espiritual, uma viagem que entrei, e foi nessa viagem introspectiva que consegui me curar. E foram nesses dois anos que eu, na verdade, assumi de vez a cantora, ela chegou mais forte, porque teve um momento que, e aí, porque a perspectiva de quem tem essa distonia focal é de nunca mais tocar. E aí, como é que vai ficar esse negócio? Mas pera lá, a arte tá onde, tá no violão ou tá em mim? De novo eu recuperei essa arte de uma forma mais inteira.

Essa doença ainda é uma coisa nova, o pessoal fica assustado porque antes o medo era o da tendinite, daí descobriram como evitar a tendinite e agora tem esse problema que ninguém sabe ainda direito como é...

Ninguém sabe, cara. No dia que eu descobri, foi num dos melhores hospitais nos Estados Unidos, portanto, do mundo, né, vamos combinar? Era o Cleveland. Aí o médico falou "tenho duas notícias pra te dar: uma, que não é tendinite". Aí eu falei "ai, que bom!" (risos) "Mas a outra é que o que você tem chama distonia focal e a nossa medicina não sabe o motivo, portanto não tem a menor idéia de como ajudar". Basicamente foi assim. Pode passar pros outros dedos, pode passar pra outra mão, eu conheço gente que parou de tocar por vinte anos achando que isso ia funcionar, mas o problema estava lá depois de vinte anos... Acho que teve aquela coisa de já que vai dar notícia ruim, já pam! Aí eu saí do hospital e deprimiu, lógico. Dois dias deprimida mas aí saí e rapidinho eu tive um processo interno de não enxergar aquilo como um problema, mas como alguma outra coisa. Por quê que tá acontecendo isso? Era uma oportunidade de descobrir alguma coisa. E foi mesmo. De cara já não ficou um problema. Eu acho que muitas pessoas até que tem ficam muito presas no problema e não possibilita uma outra visão, uma outra pesquisa interna e fica muito no problema. Pra mim, nos momentos de doença é que a gente tem a possibilidade de visitar lugares que a gente não vai se não precisar (risos). Aí você fica doente e você vai lá.

Mudando um pouco de assunto, você tem sete CDs, apenas dois lançados no Brasil, em parte até porque você viveu muito tempo no fora...

É, porque minha carreira, mesmo que não fosse planejado, começou mais pra fora, né? O primeiro convite pra gravar CD foi de fora, eu fui gravar e era uma gravadora que não tinha distribuição aqui, então uma coisa puxa a outra. Tendo também os meus irmãos abrindo espaço pra mim fora, fui. Quando o mundo do violão descobriu que tinha mais um Assad, que era uma mulher tocando violão, teve uma curiosidade. Então comecei a ter convites pra ir pra alguns festivais. Só que, novamente, como eu já fui levando um trabalho meu, que não era música erudita, era um violão instrumental, mas que eu já cantava alguma coisa ou usava o violão como instrumento de percussão, foi com essa linguagem que comecei a chamar atenção, prum trabalho meu. Aí uma coisa foi puxando a outra. Acabei morando nos Estados Unidos e tal mas a gente fica com essa vontade bem arraigada de "e o meu país, como é esse negócio?"

Aí voltei a morar aqui e tinha pra mim que só ia assinar com uma gravadora que tivesse uma distribuição decente aqui no Brasil. Acabei assinando com uma gravadora alemã, mas aqui no Brasil é Universal, então é contratual que tem de distribuir aqui (risos). É lógico que pelo fato da gravadora não ser brasileira eu tenho muito que atender uma agenda internacional muito forte, assim. O lançamento do Verde (álbum anterior) mesmo, eu fiz quinze shows no Brasil e fiz cem fora. Mas esse disco novo, o Wonderland, a gente já conseguiu ter uma agenda maior aqui, estou conseguindo dosar melhor... Mas... porque aqui é um país que não é fácil, que vocês sabem, de se ter um trabalho consistente, um país que tem uma mídia muito velada e que não facilita nada pra ninguém que já não esteja nela e pra entrar é muito corrompido tudo, né? Você liga a televisão e são cinco artistas lá em todos os canais o tempo inteiro, não tem um artista novo. Se você não tem sua música na novela da Globo sua música não toca na rádio e você não é conhecida no seu país... É um desafio!

Eu vejo como um desafio constante porém é muito gratificante quando você consegue, ao seu modo, ir mostrando o seu trabalho. Eu nunca vim a Brasília, mas quem veio aqui conheceu a Badi, levou o CD, e é esse movimento que vai ampliando o meu nome e me possibilitar criar essas raízes mais fortes, não só em São Paulo e Rio de Janeiro.

Você se cobra por ainda não ter no Brasil uma carreira que você tem no exterior?

Eu acho que isso tudo foi decorrência. Eu sei, eu tenho a consciência que eu também não estive presente aqui, então pra dizer o que seria, é difícil. Eu sei o que é. Existe uma curiosidade das pessoas, "como é que pode?", pãrãrã, eu acredito que tenha sido esse o processo, mas a gente não tem certeza de nada nessa vida. Mas eu também gosto de acreditar que, por eu estar aqui, pelo fato dos meus CDs estarem aqui agora, isso pode mudar. Porque o meu desejo, assim, é de estabilizar a carreira, assim, existe, tá bom.

Queria falar do show "Em família", que foi lançado em DVD.

Foi lançado em CD, DVD ainda vai ser. Vai chegar no Brasil. A gravadora é a GHA, ela assinou um contrato de distribuição, então vai estar chegando aí no segundo semestre.

A gente está muito feliz de ter esse trabalho registrado, porque quem teve a chance de ver, foi inesquecível.

Três gerações no palco, da mesma família...

É, emocionante. Emocionante. Assim, eu consigo olhar com o olhar de fora. Lógico, tem o olhar de dentro mas eu consigo imaginar o que é olhar de fora, a hora que os meus pais entram é uma emoção, assim, na gente, porque a gente é muito família, assim, muito unido e não tem ninguém querendo aparecer mais que ninguém, pelo contrário, a gente quer que o outro apareça mais, e isso é recíproco, assim, com todos. Então é sempre entregando a bola da vez pro outro, não tem A PESSOA, mas aí quando entram meus pais são eles, eles é que são responsáveis por tudo, né? A gente tem a completa consciência disso e respeito, e passa essa verdade que a gente sente. E a gente se emocionava toda noite vendo minha mãe cantar e as pessoas chorando com ela cantando, e eles provarem nessa idade a vida que a gente tem, que eles propuseram mas nunca viveram. Então, sei lá, meu pai com 81 anos subir nos melhores palcos dos Estados Unidos, coisa que ele vislumbrou pros filhos. Minha mãe, 74, sendo aplaudidos de pé, foi o auge da vida deles.

Qual que é o conceito desse novo trabalho, o CD Wonderland?

No Verde, eu toquei algumas faixas mas não toquei o CD inteiro. Nesse trabalho eu queria que eu fosse a violonista do projeto e que a música instrumental entrasse dentro das canções. Então tem alguns solos, como no O Mundo É um Moinho, tem o solo do blues, do vacilão, os solos entram dentro das canções e a temática do CD é uma alusão ao mundo da Alice, como se o mundo da Alice, superficialmente é um mundo de fantasia, mas num olhar mais profundo não tem nada de saudável naquele mundo. Tudo é muito louco, é muito perverso, a rainha é completamente louca; as flores, quando desconfiam que a Alice é uma erva daninha, viram uns monstros, mas superficialmente é um mundo de fantasias. Então esse reperório todo, superficialmente são músicas leves, alegres, irônicas, poéticas, mas num olhar mais profundo cada uma delas têm esse submundo, assim das personalidades humanas.

Eu acho que foi o apanhado dessa idéia que possibilitou a harmonia de um repertório tão eclético, porque eu fiz umas junções meio difíceis de serem imaginadas, mas acho que é mesmo porque a temáticas é comum em todos os cantos do mundo - todos sofremos dos mesmos problemas, seja aqui, seja no Paquistão, seja na África, enquanto ser humano. E a consequência desse problema é diferenciado dependendo do lugar aonde você esteja, mais equilibrado ou menos, mas esse diabinho todos nós temos dentro. Então é falando um pouco desse diabinho com asas (risos).

PAPO DE MANICURE

Você faria as unhas de quêm?

Hahahá! Do Sérgio, que são super fáceis de fazer, porque não tem quase nenhuma. Não, mentira, as unhas dele são super difíceis - não sei como ele consegue tocar sem unha, cara!

Quem é o manicure oficial da família Assad?

Seu Jorge. Esse não deixa nada passar sem polimento.

O que é mais difícil, cantar e fazer percussão com a boca ao mesmo tempo ou ter uma carreira musical no Brasil?

(risos). Ter uma carreira musical no Brasil (risos)! Pelo menos cantar e fazer percussão ao mesmo tempo está sob meu controle, a outra não está!

Qual a diferença entre a Mariângela e a Badi?

Acho que a Mariângela é aonde está a responsabilidade, a Badi é mais a criança, é mais a diversão.

Espiritualidade e estudar horas e horas por dia combinam?

Claro. O estudo é uma porta à transcedência. Quando você está estudando ali, é uma meditação profunda, não existe mais nada, não existe nem fome, sono, não tem mais nada, só existe você e o que você está fazendo.

Que recado você gostaria de deixar pros internautas?

Seguir a voz do coração, só isso. Porque um dia eu segui a minha e deu certo, porque se eu seguisse a da cabeça, talvez eu tivesse sempre querendo ser o que os meus irmãos eram, talvez eu não tivesse apaixonadamente encontrado o meu caminho.

Contato: www.badiassad.com.br

Fotos: Alda Minioli